RADIOTERAPIA E HUMANIZAçãO: INTEGRANDO TECNOLOGIA E SUBJETIVIDADE NO TRATAMENTO DO CâNCER DE MAMA

Pablo Moreira Damascena
Orientador(a): Neliane Cristina Moreira
RESUMO

   O câncer de mama, considerado a neoplasia de maior incidência e mortalidade entre mulheres no Brasil, representa um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. A radioterapia, reconhecida como um dos pilares fundamentais do tratamento oncológico, alia alta tecnologia e precisão para eliminar células tumorais, mas frequentemente negligencia os impactos psicossociais vivenciados pelas pacientes. O medo das radiações invisíveis, a ansiedade diante da imponência dos equipamentos e o trauma da exposição corporal constante evidenciam a necessidade de práticas assistenciais que transcendam a lógica biomédica. Nesse contexto, a Política Nacional de Humanização (PNH) surge como referência para integrar técnica e sensibilidade, propondo acolhimento e comunicação assertiva como ferramentas clínicas indispensáveis. Este estudo, de caráter qualitativo e descritivo, fundamentado em revisão bibliográfica e documental, analisa como protocolos de acolhimento humanizado podem atenuar os danos psicológicos em mulheres submetidas à radioterapia, destacando a importância da humanização para garantir adesão ao tratamento, reduzir índices de estresse e preservar a dignidade da paciente.

 

Palavras-chave: Câncer de mama, Radioterapia, Humanização em saúde, Política Nacional de Humanização, Acolhimento, Suporte emocional.
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INTRODUCAO

   O câncer de mama representa, atualmente, um dos maiores desafios da saúde pública, sendo a neoplasia de maior incidência e mortalidade entre mulheres no Brasil, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA, 2025). A radioterapia, reconhecida como um dos pilares fundamentais do tratamento oncológico, utiliza tecnologias de alta precisão para destruir células tumorais e preservar tecidos saudáveis. “No entanto, a complexidade técnica desse ambiente, marcado por aceleradores lineares, protocolos rígidos e salas blindadas  frequentemente desloca o aspecto emocional da paciente para um segundo plano” (Ganzer et al., 2017, p. 3645). 

   Essa realidade evidencia uma lacuna importante: embora os avanços tecnológicos tenham ampliado a eficácia clínica, o atendimento ainda se estrutura sob uma lógica predominantemente biomédica e tecnicista, que concentra o foco no tumor e negligencia a subjetividade da mulher. O medo das radiações invisíveis, a ansiedade diante da imponência dos equipamentos e o trauma da exposição física constante da mama são exemplos de impactos psicossociais que, muitas vezes, não recebem a devida atenção (Silva, 2024).

   Nesse contexto, a Política Nacional de Humanização (PNH) surge como referência para repensar práticas assistenciais, propondo que a qualidade do cuidado esteja vinculada não apenas à tecnologia, mas também ao acolhimento e à comunicação assertiva. A integração entre técnica e sensibilidade torna-se, portanto, indispensável para garantir adesão ao tratamento, reduzir índices de estresse e preservar a dignidade do paciente (Oliveira, 2025).

   Este artigo propõe-se a analisar como protocolos de acolhimento humanizado podem atenuar os danos psicológicos em mulheres diagnosticadas com câncer de mama, destacando o papel da comunicação e do suporte emocional como ferramentas clínicas centrais. Ao consolidar evidências de bases como o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Política Nacional de Humanização (PNH), busca-se oferecer diretrizes que transformem a radioterapia em uma experiência de cura integral, onde a eliminação da patologia caminhe lado a lado com a preservação da integridade psíquica e social da paciente.

   O objetivo foi analisar de que forma práticas de acolhimento humanizado, fundamentadas na PNH, podem contribuir para a redução dos impactos psicológicos em mulheres submetidas à radioterapia no tratamento do câncer de mama.

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METODOLOGIA

   Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em revisão bibliográfica e documental. A escolha dessa abordagem justifica-se pela necessidade de compreender os aspectos subjetivos e psicossociais envolvidos na experiência de mulheres submetidas à radioterapia para o tratamento do câncer de mama, bem como identificar estratégias de acolhimento humanizado aplicáveis nesse contexto.

   O presente estudo caracteriza-se como qualitativo, uma vez que busca interpretar significados, percepções e vivências relacionadas ao tratamento radioterápico. Essa abordagem permite compreender de forma mais profunda a experiência subjetiva dos pacientes, valorizando suas narrativas e sentimentos diante de um processo marcado pela alta complexidade técnica e pelo impacto emocional.

Além disso, trata-se de uma pesquisa descritiva e exploratória, cujo objetivo é mapear práticas de humanização já existentes no contexto da radioterapia. A partir desse levantamento, pretende-se propor diretrizes que possam ser incorporadas ao ambiente clínico, contribuindo para a melhoria da qualidade do atendimento e para a valorização da dimensão humana no cuidado oncológico.

   As fontes de dados utilizadas neste estudo abrangem diferentes tipos de materiais que sustentam a análise proposta. Em primeiro lugar, destacam-se os documentos oficiais, como as publicações do Instituto Nacional de Câncer (Inca, 2025) e a Política Nacional de Humanização (Brasil, 2013), que fornecem diretrizes fundamentais para compreender tanto o cenário epidemiológico quanto às políticas públicas voltadas à humanização do atendimento em saúde.

   Além disso, a pesquisa se apoia em produção científica recente, composta por artigos publicados em bases reconhecidas como SciELO, PubMed e Google Scholar. Para garantir a atualidade e relevância dos achados, foram priorizados estudos publicados entre os anos de 2015 e 2025, período que reflete avanços significativos na área de oncologia e radioterapia.

Por fim, o trabalho incorpora referências teóricas que discutem a humanização em saúde, a prática clínica em oncologia e os aspectos técnicos e emocionais envolvidos na radioterapia. Essas obras oferecem suporte conceitual para a análise, permitindo relacionar a prática profissional com reflexões mais amplas sobre o cuidado integral ao paciente.

   Os procedimentos de coleta foram realizados por meio de um levantamento sistemático de publicações científicas e documentos oficiais. Para tanto, foram utilizados descritores como câncer de mama, radioterapia, humanização em saúde, acolhimento e suporte emocional. A seleção dos materiais seguiu critérios de relevância, atualidade e pertinência ao tema, garantindo que apenas fontes consistentes e alinhadas ao objetivo da pesquisa fossem incluídas na análise.

   No que se refere aos procedimentos de análise, optou-se pela Análise Temática, que possibilitou a identificação de categorias centrais relacionadas ao tratamento radioterápico, tais como o medo das radiações, o impacto emocional da exposição corporal, a comunicação clínica e os protocolos de acolhimento. Em seguida, foi realizada uma síntese integrativa, articulando as evidências científicas com as diretrizes da Política Nacional de Humanização (Brasil, 2013). Esse processo permitiu propor recomendações práticas aplicáveis ao ambiente radioterápico, visando fortalecer a qualidade do cuidado.

   Entretanto, algumas limitações devem ser reconhecidas. A pesquisa não contemplou entrevistas ou observações diretas em serviços de radioterapia, restringindo-se à análise documental e bibliográfica. Além disso, os resultados refletem predominantemente o contexto brasileiro, podendo apresentar variações em outros sistemas de saúde.

   

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RESULTADOS

   A análise bibliográfica evidenciou que, apesar dos avanços tecnológicos na radioterapia, o cuidado centrado na paciente ainda enfrenta barreiras significativas. Os resultados apontam três eixos principais. O primeiro refere-se aos impactos psicossociais da radioterapia, que incluem o medo das radiações invisíveis, a ansiedade frente aos equipamentos e a exposição corporal constante. Esses fatores demonstram que o tratamento, embora eficaz do ponto de vista clínico, pode comprometer a saúde mental e social do paciente quando não acompanhado de suporte emocional adequado (Silva, 2024).

   O segundo eixo aborda o acolhimento humanizado como estratégia clínica, conforme proposto pela Política Nacional de Humanização (Brasil, 2013). Práticas como comunicação clara e empática, ambiência acolhedora e escuta ativa contribuem para reduzir o medo, fortalecer o vínculo terapêutico e preservar a dignidade da mulher. Estudos recentes confirmam que protocolos de acolhimento humanizado favorecem a adesão ao tratamento e reduzem índices de estresse (Santana; Silva; Amorim, 2022).

   Por fim, o terceiro eixo evidencia a necessidade de integração entre técnica e sensibilidade. Os resultados indicam que a eficácia clínica não deve ser dissociada da dimensão subjetiva. A radioterapia, quando acompanhada de práticas humanizadas, transforma-se em uma experiência de cura integral, na qual a eliminação da patologia caminha lado a lado com a preservação da integridade psíquica e social da paciente (Oliveira, 2025).

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DISCUSSAO

A análise dos  resultados evidencia que a radioterapia, embora seja um dos tratamentos mais eficazes contra o câncer de mama, ainda se encontra fortemente marcada por uma lógica biomédica que privilegia a técnica em detrimento da subjetividade da paciente. Essa constatação reforça a necessidade de repensar práticas assistenciais, de modo a integrar tecnologia e humanização. O modelo biomédico, centrado na doença e em sua eliminação, contribui para avanços clínicos significativos, mas mostra-se insuficiente diante das demandas emocionais e sociais das mulheres em tratamento. O medo das radiações invisíveis, a ansiedade diante da imponência dos equipamentos e o trauma da exposição corporal constante não são apenas efeitos colaterais, mas experiências que impactam diretamente a adesão ao tratamento e a qualidade de vida (Silva, 2024).

   Nesse contexto, a humanização surge como ferramenta clínica essencial. A Política Nacional de Humanização propõe que o cuidado em saúde seja pautado pelo acolhimento, pela escuta ativa e pela comunicação clara. No âmbito da radioterapia, essas práticas assumem papel estratégico: a comunicação assertiva, por meio de explicações acessíveis sobre o procedimento, reduz o medo e fortalece a confiança da paciente na equipe; o acolhimento emocional, ao reconhecer e validar sentimentos, contribui para a redução da ansiedade; e a ambiência humanizada, com pequenas mudanças no espaço físico, como iluminação adequada ou música ambiente, transforma a percepção da paciente sobre o tratamento (Brasil, 2013). Estudos confirmam que protocolos de acolhimento humanizado favorecem a adesão ao tratamento, reduzem índices de estresse e preservam a dignidade da mulher (Santos; Brito Neto, 2023). 

   A discussão aponta que a eficácia clínica não deve ser dissociada da dimensão subjetiva. A radioterapia, quando acompanhada de práticas humanizadas, transforma-se em uma experiência de cura integral. Nesse sentido, a humanização não é apenas um complemento, mas uma condição essencial para o sucesso terapêutico. Contudo, a implementação de protocolos de humanização enfrenta desafios importantes. Entre eles, destacam-se a necessidade de capacitação profissional, já que muitos trabalhadores da saúde ainda não recebem formação adequada para lidar com aspectos emocionais e psicossociais; a cultura institucional, que frequentemente prioriza indicadores técnicos e de produtividade, relegando a humanização a segundo plano; e os recursos limitados, pois a sobrecarga de serviços e a escassez de profissionais dificultam a adoção de práticas mais sensíveis e individualizadas (Oliveira, 2025). 

   As perspectivas futuras apontam para a necessidade de mudanças estruturais e culturais. É fundamental investir em formação multiprofissional que valorize tanto o domínio técnico quanto as competências comunicacionais e relacionais. Além disso, a humanização deve ser reconhecida como indicador de qualidade nos serviços de saúde, ao lado da eficácia clínica. Por fim, é imprescindível promover pesquisas aplicadas que avaliem o impacto de protocolos humanizados na adesão ao tratamento e nos índices de sobrevida, consolidando a integração entre técnica e sensibilidade como eixo central da prática radioterápica.

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CONCLUSAO

   A análise realizada evidenciou que, embora a radioterapia representa um dos pilares mais eficazes no tratamento do câncer de mama, sua condução ainda se encontra marcada por uma lógica tecnicista e biomédica, que frequentemente negligencia os impactos psicossociais vivenciados pelas mulheres.

   O estudo demonstrou que práticas de acolhimento humanizado, fundamentadas na Política Nacional de Humanização, contribuem de forma significativa para a redução desses impactos, fortalecendo a adesão ao tratamento, diminuindo níveis de estresse e preservando a dignidade da paciente.

   Conclui-se, portanto, que a integração entre tecnologia de ponta e sensibilidade humana é indispensável para transformar a radioterapia em uma experiência de cura integral. O investimento em estratégias de acolhimento humanizado mostra-se essencial para que o tratamento alcance sua plenitude, unindo eficácia clínica à valorização da subjetividade feminina.

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REFERENCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização (PNH): documento base para gestores e trabalhadores do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

 

GANZER, Paula Patricia; FIDELIS, Andréa Cristina Fermiano; COIMBRA NETO, Luiz Raimundo Lima; NESPOLO, Daniele; BORELLI, Verena Alice; OLEA, Pelayo Munhoz.

 

DORION, Eric Charles Henri. Aceleradores lineares em hospitais públicos: inovação em processos hospitalares. Revista GEINTEC – Gestão, Inovação e Tecnologias, São Cristóvão, v. 7, n. 2, p. 3642-3656, 2017. Disponível em: . Acesso em: 21 maio 2026.

 

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Estimativa 2025: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2025.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO (UFTM). Manual de apresentação de trabalhos acadêmicos baseado nas normas de documentação da ABNT. Disponível em: . Acesso em: 21 maio 2026.

 

SANTANA, Débora César de; SILVA, Graziela Maria Ferreira da; AMORIM, Samira Jordane de Luna. A importância da humanização para a qualidade de vida de pacientes em radioterapia para tratamento de câncer de mama. Recife: Centro Universitário Brasileiro – UNIBRA, 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Tecnólogo em Radiologia).

 

SANTOS, Rafaela Gonçalves; BRITO NETO, Rogério da Costa. Tratamento do câncer de mama: um estudo acerca do atendimento humanizado na radioterapia. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 9, n. 10, 2023. DOI: 10.51891/rease.v9i10.12211.

 

SILVA, Alice Ingrid Francisca da; SILVA, Sara Dias; ALVES SALES, Alessandra de Oliveira; VASCONCELOS, Luciene Silva; SILVA, Maria do Socorro de Lima. O profissional tecnólogo em radiologia na humanização do atendimento de portadores de câncer de mama: revisão de literatura. Publicado entre 2018 e 2023 em bases SciELO e PubMed.

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