A biossegurança constitui um conjunto de ações voltadas à prevenção, controle e redução dos riscos inerentes às atividades em saúde, sendo fundamental para a proteção de pacientes, profissionais e do meio ambiente. No contexto da radiologia odontológica, a biossegurança assume papel de destaque por envolver tanto a prevenção da contaminação cruzada quanto a proteção contra os efeitos da radiação ionizante. Dessa forma, sua aplicação não se limita ao uso de equipamentos de proteção, abrangendo também comportamentos, protocolos e práticas profissionais adequadas que garantam a segurança durante a realização dos exames radiográficos (AMARAL; MORAIS, 2021).
Segundo a literatura, a adoção de medidas de biossegurança está diretamente relacionada à qualidade da assistência prestada e à prevenção de acidentes ocupacionais. Nesse sentido, não basta a disponibilidade de equipamentos ou tecnologias de proteção, sendo indispensável que os profissionais possuam conhecimento técnico e adotem corretamente as medidas recomendadas. Além disso, a biossegurança também engloba a organização do ambiente de trabalho, a desinfecção de superfícies, o gerenciamento de resíduos e a implementação de protocolos capazes de minimizar os riscos à saúde pública (AMARAL; MORAIS, 2021).
Na radiologia odontológica, os riscos ocupacionais podem ser classificados principalmente em riscos biológicos e riscos físicos. Os riscos biológicos estão relacionados à exposição a microrganismos presentes na cavidade oral dos pacientes e em superfícies contaminadas. A cavidade bucal apresenta uma microbiota complexa, composta por diferentes espécies de bactérias, fungos e vírus, que podem ser transferidos para materiais utilizados durante os exames radiográficos. Dessa forma, filmes radiográficos, posicionadores, sensores digitais, aventais e superfícies dos equipamentos podem atuar como veículos de transmissão de microrganismos, favorecendo a ocorrência de contaminação cruzada (MOREIRA, 2011).
A contaminação cruzada representa um dos principais desafios relacionados à biossegurança em radiologia odontológica. Estudos demonstram que a transmissão de doenças infecciosas pode ocorrer quando materiais contaminados entram em contato com pacientes, profissionais ou superfícies que não foram adequadamente higienizadas. Nesse contexto, a utilização de barreiras de proteção, a desinfecção dos equipamentos, a higienização das mãos e a troca adequada de luvas constituem medidas essenciais para a prevenção da disseminação de agentes infecciosos (DINIZ et al., 2009).
Além dos riscos biológicos, a radiologia odontológica envolve riscos físicos decorrentes da exposição à radiação ionizante. Embora as doses empregadas em exames odontológicos sejam relativamente baixas, a exposição inadequada ou repetitiva pode aumentar a probabilidade de ocorrência de efeitos biológicos. De acordo com a International Commission on Radiological Protection (ICRP), a radiação pode causar efeitos determinísticos e estocásticos. Os efeitos determinísticos apresentam relação direta com a dose absorvida e manifestam-se apenas acima de determinados limiares de exposição. Já os efeitos estocásticos não apresentam dose limiar conhecida, estando associados à probabilidade de ocorrência de alterações celulares, mutações genéticas e desenvolvimento de neoplasias (ICRP, 2007; MOREIRA, 2011).
Diante desses riscos, a radioproteção torna-se um dos pilares fundamentais da biossegurança em radiologia. Seu principal objetivo é garantir que a exposição à radiação seja mantida em níveis tão baixos quanto razoavelmente exequíveis, sem comprometer a qualidade diagnóstica das imagens obtidas. Esse conceito é definido pelo princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable), amplamente adotado internacionalmente como referência para a prática segura dos procedimentos radiológicos (ICRP, 2007).
O princípio ALARA estabelece que toda exposição à radiação deve ser devidamente justificada e otimizada, considerando que não existe dose completamente isenta de risco biológico. Dessa forma, medidas como a redução do tempo de exposição, o posicionamento adequado do paciente, o aumento da distância da fonte emissora e a utilização de barreiras de proteção contribuem significativamente para a diminuição da dose recebida por pacientes e profissionais. Além disso, o controle de qualidade dos equipamentos e a prevenção de falhas técnicas reduzem a necessidade de repetição de exames, evitando exposições desnecessárias à radiação (ICRP, 2007).
Entre os recursos utilizados para proteção radiológica destacam-se os equipamentos de proteção individual. Luvas, máscaras, óculos de proteção, aventais plumbíferos e protetores de tireoide constituem medidas indispensáveis para a redução dos riscos físicos e biológicos presentes nos procedimentos radiográficos. A literatura demonstra, entretanto, que embora a importância desses equipamentos seja amplamente reconhecida, sua utilização nem sempre ocorre de forma completa e adequada, evidenciando a necessidade de reforço das ações educativas e de capacitação profissional (GREPPI; CESAR, 2002).
No contexto da odontopediatria, a biossegurança assume importância ainda maior. Pacientes pediátricos apresentam características que exigem atenção diferenciada durante a realização dos exames radiográficos. Crianças possuem maior radiossensibilidade quando comparadas aos adultos, uma vez que seus tecidos encontram-se em intenso processo de crescimento e desenvolvimento celular. Além disso, apresentam maior expectativa de vida, aumentando o período durante o qual os efeitos estocásticos da radiação podem se manifestar (ICRP, 2013).
Outro fator relevante refere-se às dificuldades comportamentais frequentemente observadas em pacientes pediátricos. A ansiedade, o medo e a dificuldade de colaboração podem comprometer o correto posicionamento durante o exame, favorecendo falhas técnicas e aumentando a necessidade de repetição das imagens radiográficas. Consequentemente, torna-se fundamental que os profissionais estejam preparados para conduzir os procedimentos de forma segura, utilizando técnicas adequadas de comunicação, posicionamento e proteção radiológica (ICRP, 2013).
Dessa forma, os estudos analisados evidenciam que a biossegurança em radiologia odontológica deve ser compreendida como um conjunto integrado de medidas voltadas à proteção radiológica, ao controle de infecção e à prevenção de acidentes ocupacionais. A adoção adequada dessas práticas contribui para a obtenção de exames com qualidade diagnóstica, reduzindo riscos e promovendo maior segurança para pacientes e profissionais, especialmente no atendimento odontopediátrico.